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Publicado em: 16 Outubro 2026

Inovar à mesa, transformar o futuro: gastronomia e turismo ao serviço de sistemas alimentares sustentáveis

No dia 16 de outubro celebra-se o Dia Mundial da Alimentação.

Há alguns anos, no âmbito de uma visita de estudo com os nossos estudantes do Mestrado em Ciências Gastronómicas, tive o privilégio de assistir à produção da amêndoa coberta de Moncorvo. Uma sala muito simples, dominada por uma bacia de cobre aquecida, onde as mãos calejadas e experientes de uma artesã faziam as amêndoas cantarem, oito horas por dia, durante oito dias.  Foi impossível ficar indiferente àquela dedicação à amêndoa. Água, açúcar, amêndoas e tempo, muito tempo!

Partilho esta memória no âmbito da comemoração do 46.º Dia Mundial da Alimentação, um momento ideal para uma breve reflexão sobre uma das questões mais importantes e transversais da humanidade: o acesso a uma alimentação segura e de qualidade.

Vivemos num mundo cada vez mais bipolar onde, apesar do avanço científico e tecnológico, cerca de 8% da população mundial sofreu de fome crónica em 2025, ao mesmo tempo em que um terço dos alimentos produzidos no mundo foi desperdiçado. As projeções demográficas mundiais colocam ainda mais pressão sobre o ecossistema. A população mundial, que ronda os 8,3 mil milhões de habitantes atualmente, deverá crescer para 9 mil milhões até 2037, com um pico de 10,3 mil milhões previsto para meados de 2080 (UN).

Então, a pergunta que se impõe é: o que tem a amêndoa coberta de Moncorvo a ver com isto?

O tema do Dia Mundial da Alimentação para 2026, “Inovar hoje. Alimentar o amanhã”, destaca o papel da ciência, da tecnologia, do conhecimento tradicional e da ação coletiva na construção de sistemas agroalimentares mais sustentáveis, resilientes e inclusivos.

De acordo com a FAO, os governos, o setor privado, os agricultores, o meio académico, a sociedade civil e os cidadãos devem trabalhar em conjunto para garantir uma maior variedade de alimentos nutritivos, a preços acessíveis, fáceis de obter, seguros e sustentáveis, com vista a alcançar a segurança alimentar e uma alimentação saudável para todos. No caso específico da Academia, o conhecimento alimenta a inovação, mas o verdadeiro impacto decorre da parceria. O meio académico e as instituições de investigação precisam de ir além da descoberta e de trabalhar de forma transversal entre setores e disciplinas para transformar evidências, ciência e conhecimentos tradicionais em soluções práticas que reforcem os sistemas agroalimentares onde são mais necessários.

No âmbito das áreas de influência da nossa Escola, a Gastronomia tem um papel fundamental na criação de soluções que conciliem criatividade, qualidade nutricional e responsabilidade ambiental, como, por exemplo, o aproveitamento integral dos alimentos, a utilização de ingredientes subaproveitados, o desenvolvimento de novos produtos e técnicas e a integração do conhecimento científico e tradicional, em estreita colaboração com os principais agentes económicos do setor da Hotelaria e Restauração.

Já o Turismo aproxima produtores, empresas, comunidades e consumidores através da valorização dos produtos locais e sazonais, das variedades autóctones e do património cultural, dinamizando as economias locais e criando experiências que promovem a sensibilização para os sistemas alimentares sustentáveis.

Está nas nossas mãos fazer com que a inovação gastronómica transforme ingredientes, técnicas e recursos em soluções que respondam aos desafios alimentares contemporâneos e que o turismo ajude a converter a diversidade alimentar e cultural dos territórios em oportunidades de desenvolvimento sustentável.

A Gastronomia e o Turismo não são meros setores de fim de linha, que dependem dos sistemas alimentares. Podem, e devem, influenciar a sua transformação, articulando inovação, valorização do património, responsabilidade ambiental e desenvolvimento das comunidades.

Por fim, a resposta: tudo.

Daniel Azevedo
Professor Adjunto da Escola Superior de Hotelaria e Turismo da Universidade Técnica do Porto
Coordenador do Mestrado em Direção Hoteleira
Codiretor do Mestrado em Ciências Gastronómicas (em parceria com a Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto)

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